Detalhamento de RAMALHO LEITE ESCREVE: PARTIU A ULTIMA DATILOGRAFA

RAMALHO LEITE

PARTIU A ULTIMA DATILÓGRAFA

 

 

Quando cheguei à Assembleia Legislativa do Estado, como servidor, já encontrei Lourdinha Luna e a sua fama de melhor datilógrafa do quadro legislativo. Redatora de anais, redatora de debates ou simplesmente, eximia datilógrafa, sua requisição era indispensável aos que desejavam apresentar um trabalho bem elaborado nos tipos de uma Remington ou de uma Olivetti - manuais, pois a máquina elétrica foi um avanço alcançado mais diante.

Na posse de um novo presidente, se a solenidade exigia um discurso escrito, tinham que chamar Lourdinha para os retoques finais e a versão derradeira. O Palácio da Redenção já descobrira sua perícia e o governador Pedro Gondim passou a lhe mandar alguns trabalhos para aprimorar. Advogados famosos, a exemplo do meu sogro, José Aragão, recorriam a Lourdinha na hora de datilografar um recurso dirigido aos tribunais superiores. Até que, o solitário de Tambaú tomou conhecimento da sua técnica e, acostumado a colocar no papel os garranchos que a miopia permitia, resolveu a apelar ao presidente Clovis Bezerra para socorre-lo na digitação de suas memórias.

A partir de então, Lourdinha Luna passou a ser a datilógrafa exclusiva do imortal José Américo de Almeida. Datilógrafa? Secretária formada na Fundação Getúlio Vargas, foi muito mais além e se revelou a companhia indispensável ao velho guerreiro. Fosse no Rio de Janeiro, para ficar mais próximo à Academia ou à livraria José Olímpio, no Casarão da beira mar, nas fazendas de Zé Rufino, onde o primo famoso recarregava as energias, ou no frio de Areia onde se deliciava com o movimento da bagaceira e  o perfume adocicado do mel e da cachaça recém saída dos alambiques, lá estava a inseparável Lourdinha.

Essa companhia permitiria a Lourdinha ser testemunha ocular e auditiva de inúmeros fatos da cultura e da política paraibanas que, em determinado período da sua história, giravam em torno do ilustre filho de Areia. De testemunha da história, passou a ser a própria história e se tornou, com o desaparecimento do seu ídolo, a vigilante e destemida protetora da sua memória. Publicou livros, escreveu crônicas, narrou fatos e omitiu detalhes que não estava autorizada a passar adiante, provando, com essa atitude, ser merecedora da confiança do grande paraibano que o Brasil sempre respeitou.

Tentei levá-la a disputar uma cadeira no Instituto Histórico. Esquivou-se e revelou a modéstia das suas pretensões. Já era membro da Academia Feminina de Letras e Artes, da Academia de Letras de Areia e outras entidades que ajudou a fundar, participando, efetivamente, das suas atividades. Mais recentemente, tornou-se uma ativista das redes sociais. Opinava sobre os assuntos que dominava e enriquecia as postagens com informações preciosas colhidas ao longo de sua existência. De repente, fui surpreendido com seu anuncio de uma ausência provisória do face book. Iria submeter-se a uma intervenção cirúrgica. A operação foi bem sucedida mas, uma consequência imprevisível, levou-a a óbito, alguns dias depois. Perdemos, aos 92 anos, (sua alegria contagiante não passava dos 80) a escritora e historiadora Maria de Lourdes Lemos de Luna, a querida Lourdinha de todos nós - a última datilógrafa.

 

 

 

 

 

 

COMENTE





Mais

17/03/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: O TRABUCO VENCEU A LEI (3)

Já vimos como chegou ao povo gaúcho e aos mineiros, a noticia da morte de João Pessoa. Na capital federal, o jornal A Noite fez circular, na segunda feira, dia 28 de julho, uma edição especial. O crime ocorrera no sábado, no Recife. Essa a manchete de primeira página: “O assassínio do Presidente João Pessôa”, com os subtítulos: “A surpresa e a rapidez da aggressão-A arrogância do criminoso-Detalhes das ocorrências em Pernambuco”. E acrescentava em tipos menores: “O corpo do chefe do Poder Execut


10/03/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: O TRABUCO VENCEU A LEI (2)

A minha narrativa sobre os acontecimentos que culminaram com a morte do presidente João Pessoa, prende-se mais à forma como essa infausta noticia foi recebida fora dos limites paraibanos. Já vimos como o povo gaúcho, com Getúlio Vargas à frente, foi surpreendido. Interessa-me agora registrar, como o outro parceiro da Aliança Liberal, o estado de Minas Gerais reagiu ao sacrifício de João Pessoa, naquele 26 de julho de 1930. Além de associar-se à bancada gaúcha nas manifestações de pesar, os parl


03/03/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: O TRABUCO VENCEU A LEI (1)

Era julho de 1930. Na Capital da Parahyba, a Escola Normal e o Liceu Paraibano eram os estabelecimentos de ensino mais avançados. O estado estava convulsionado com a rebelião surgida no município de Princesa Isabel, declarado “território livre” pelo deputado e coronel José Pereira Lima. Era presidente da Parahyba o ex-ministro do Tribunal Militar, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa. Para combater os rebeldes, faltava ao presidente o indispensável a


24/02/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: ASCENSÃO E QUEDA DE CAMILO DE HOLANDA

Na primeira República, após a vitória de 1915 que lhe deu a chefia política do Estado, Epitácio Pessoa indicou Francisco Camilo de Holanda para mandatário da Parahyba. Sua escolha não foi das mais pacíficas. Encontrou barreira no irmão de Epitácio, coronel Antonio Pessoa, que o detestava. Antonio Pessoa era o vice-presidente do Estado em exercício, face à renúncia do presidente Castro Pinto. A escolha de Camilo irritou Antonio Pessoa a tal ponto que o fez abandonar o cargo e retirar-se para


17/02/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: O DIA EM QUE QUEIMARAM A UNIÃO

O presidente Solon de Lucena realizou, na Parahyba, um dos mais operosos governos de que se tem notícia, na República Velha. Também pudera! Na presidência da nação estava seu parente e chefe, Epitácio Pessoa. Este, paraibano de Umbuzeiro, aquele, de Bananeiras. O jornal Cidade de Bananeiras, edição de 19 de junho de 1908, dá notícia da presença do mestre-escola Solon, ao lado do também professor Álvaro de Carvalho, no encerramento do semestre letivo do Instituto Bananeirense, renomada escola l


10/02/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: A FALA DO TRONO

No início de cada sessão legislativa, é da tradição democrática, o envio pelo Poder Executivo de mensagem ao Poder Legislativo, em todos os níveis: municipal, estadual e federal. A tradição virou norma, e entre nós, está inserta no artigo 86, inciso IX, da Constituição do Estado da Paraíba, na competência exclusiva do Governador. A Carta fala em “remeter mensagem à Assembleia Legislativa, por ocasião da abertura da sessão legislativa, expondo a situação do Estado e solicitando as providências


03/02/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: PRINCESA VISTA LÁ FORA (3)

Na imprensa de todo o País repercutiam os acontecimentos que tinham como palco o território livre de Princesa. Os rebeldes comandados pelo deputado e coronel José Pereira infligiam sucessivas derrotas à nossa briosa policia militar, aquartelada no Piancó e entrincheirada nos arredores das cidadelas ocupadas pelos pereristas. Lutando em território que conheciam com a palma da mão, os rebeldes levavam vantagem diante das tropas legais. Além do mais, enquanto o presidente João Pessoa tinha dificuld


27/01/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: PRINCESA VISTA DE FORA (2)

Como vimos anteriormente, os despachos telegráficos do secretário José Américo de Almeida designavam de cangaceiros as tropas formadas pelos rebeldes do coronel José Pereira. Raramente o tratamento de “bandidos” era esquecido quando a referência era dirigida aos comandados do soba princesence. Há exemplo publicado: “Comunicam de Piancó que o acampamento do tenente Mauricio foi atacado fortemente pelos “pereristas”, repelidos com perdas.”(Diário de Notícias,Rio,8.06.1930) O jornal da capital fede


20/01/2017 RAMALHO LEITE ESCREVE: PRINCESA VISTA LÁ FORA

O que já se escreveu sobre a rebeldia do deputado José Pereira contra o governo de João Pessoa, daria uma biblioteca exclusiva sobre o assunto. Não terei a veleidade de romper com os liames que vinculam o historiador aos fatos, até por que, nessa história, nunca houve imparcialidade. Os escritos levam os resquícios da paixão vivida à época e, poucos se deram ao trabalho de narrar aqueles dias tormentosos fugindo da visão dicotômica: contra ou a favor de Zé Pereira ou de João Pessoa. O paraiban


13/01/2017 'O PAIZ' VISITA O ESTADO

O imigrante português João José dos Reis Junior, portador do titulo nobiliárquico de conde São Salvador de Matosinho, era o proprietário da casa número 63 da Rua do Ouvidor, no centro do Rio, onde, por inspiração de Quintino Bocaiúva, “o príncipe da imprensa brasileira” fundou e instalou “O Paíz”, jornal “independente, político, literário e noticioso”. Era primeiro de outubro de 1884. O diário adotaria diversos perfis políticos ao tempo em que, enfrentava também, dificuldades financeiras. Sobrev


09/12/2016 RAMALHO LEITE ESCREVE: DIÓGENES

Graças à iniciativa do paraibano Adalberto Targino e seus confrades da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte fui honrado com a inclusão do meu nome entre os novos sócios da entidade, na categoria de correspondente. Em muito boa companhia: Berilo Ramos Borba, Roque de Brito Alves,Raimundo de Oliveira, Ralph Siqueira, Itapuan Botto Targino, Walber de Moura Agra,Ricardo Bezerra, além dos ausentes mas não menos destacados desembargadores Rogério Fialho e Fátima Bezerra Cavalcanti. A


11/11/2016 LEMBRANDO LOURIVAL CAETANO: RAMALHO LEITE ESCREVE

Sob os auspícios do Instituto Histórico de Bayeux, Vanildo de Brito Caetano resolveu perenizar em livro, a vida e obra de seu pai, Lourival Caetano de Lima, a maior liderança política que aquela cidade conheceu. Fui seu admirador e ele, um dia, me honrou como meu eleitor. Conheci Lourival como companheiro de bancada na Assembléia Legislativa da Paraíba. Eu na ARENA e ele no MDB. Naquelas eleições de 1978 ele conquistara sua cadeira parlamentar com 10.224 votos.Obtive trezentos votos a mais, tod


27/10/2016 RAMALHO LEITE ESCRVE: UMBUZEIRO, TERRA DE GRANDES

Para mim era desconhecida a informação de que a cidade de Umbuzeiro tem a mesma padroeira de Bananeiras - Nossa Senhora do Livramento. E ambas as paróquias devem o incentivo maior da edificação de suas matrizes ao abnegado pastor José Maria de Ibiapina. Data de 1870 a primeira Igreja de Umbuzeiro, situada à rua coronel Antonio Pessoa. Em Bananeiras, pela rua do mesmo nome chega-se à Matriz do Livramento, iniciada em 1861.Mas as ligações históricas entre os dois municípios não param por aí.


07/10/2016 RAMALHO LEITE ESCREVE: COMO ERA UM DIA DE ELEIÇÃO

Quando eu “era uma criança pequena” lá em Borborema um dia de eleição era um dia de festa. Também de brigas e muitas discussões, logo esquecidas. Mas a estrutura montada para receber os eleitores, demandava recursos próprios e por isso, poucos tinham direito de pleitear votos. Somente a partir de 1974, com a Lei Etelvino Lins, que proibiu o fornecimento de transporte e comida aos eleitores, gente enxerida da minha qualidade pôde disputar um mandato de deputado. A lei do pernambucano, ex-ministro


23/09/2016 PRIMEIRA CONVERSA (2) RAMALHO LEITE ESCREVE

Ao descobrir o Instituto Histórico e suas prateleiras de arquivos que escaparam das traças e da ação do tempo, mergulhei de máscara e luvas nesse tesouro do passado. Revisitei as minhas colunas de assuntos estudantis de A Tribuna do Povo, jornal da UDN dirigido por Clovis Bezerra e secretariado por Archimedes Cavalcanti, também membro do IHGP. Um exercício que entusiasma. Encontrei Pedro Gondim, governador dos paraibanos, na solidariedade à rebeldia do seu colega Leonel Brizola, pela manutenção



Clique para Voltar 16 de 30 de 437 registros Clique para avançar